Com adaptações medíocres como Branca de Neve e o Caçador (2012) e mesmo o políticamente correto da Disney, de 1937, não trouxe a tona a mítica dos contos dos irmãos Grimm, a base da literatura infantil, do imaginário onírico europeu. Pablo Berger faz um belo excerto dos contos de fada em Branca de Neve (2012), que sai agora nos cinemas brasileiros.A trama que todos conhecem, se situa em uma Espanha arcaica da década de 20. Carmencita é fruto de um casal de artístas renomados, filha de um toureiro famoso, Antonio Villalta (Daniel Gimenez Cacho) e a cantora Carmen de Triana (Imna Cuesta), cujo acidente de Antonio em uma tourada, muda o futuro da família. Carmen morre ao gerar sua filha, Carmencita.
A madrasta Encarna (Maribel Verdú), então a enfermeira que cuidou de Antonio e se apoderou da influência do toureiro para galgar seu espaço nas colunas socias dos jornais, edificando seu individualismo e seu desejo de poder sobre todos.
Carmencita não pode se acolher com Dona Concha (Angela Molina), sua avó por muito tempo, pois morre de infarto. Não restava saida a não ser ir ao lar da madrasta, que foi submetida a tratamentos inexequíveis.
Isso não impediu Carmencita de explorar a casa e descobrir a figura frágil de seu pai, preso a uma cadeira de rodas, que por um curto espaço de tempo, a ensinou a tourear e alimentou os anseios de ambos reconstituírem uma família novamente.
A madrasta mata Antonio e Carmencita, agora já mais velha, esta em um bosque muito longe.
Ao ser salva por anões, estes também toureiros artístas intinerantes, acolhem-a e ganham espaço e fama devido as qualidades na tourada de Carmen, que perde a memória e seu nome. Assim perpetua-se como sucessora do posto de toureiro do Pai, mas morre tragicamente ao comer a famosa maçã envenenada.
O jogo de fotografias impressiona, assim como a exploração do elemento antropofágico ao ideal dos Grimm a cultura espanhola cinematográfica. O uso arguto de elementos oníricos do cinema mudo, traz a essência do cinema que perdemos na infância, quando acreditávamos na verdade das câmeras.
O filme se desprende do protecionismo a criança e figura a maldade como algo inerênte ao ser humano. O público recaiu sobre Berger pois ele matou os touros para rodar o longa e usou-se dos artificios da tourada como as lanças e as bandeirinhas. A demagogia de querer distorcer a verdade da vida, tiraria o brilho do filme. A tragédia sobre a protagonista deve ser encenada, assim como a política da tourada, que é a tragédia espanhola. Como O Sol Também se Leventa (1926), de Ernest Hemingway se pauta nas touradas para evocar o vazio do pós guerra e a classe burguesa americana.
O touro talvez seja um sutil jogo metafórico de Branca de Neve, que luta contra um destíno trágico e inevitável, sem ser recompensado pela morte, apenas aproveitado pela sociedade do espetáculo e seus povo caricato e ignorante. Assim morrem todos os artístas.
Diferentemente do pastiche ingênuo de O Artista (2012) e a dita renovação do universo fantástico que o cinema proporcionava, tão deteriorada com o advento das séries televisivas, que proporcionam melhor acomodação em formação de uma trama complexa que o cinema. A crise cinematográfica, muito bem definida por Fernando Meirelles; ``As séries estão para o romance assim como o cinema está para o conto´´, meio que profetiza o fim da magia que o cinema trazia antigamente.
Berger em seu filme homenageia brilhantemente o cinema, e não somente o cinema mudo. Evoca claramente na exploração de câmeras próximas a redenção sobre o destino, em uma profundidade dramática que Carl Theodor Dreyer, usou em A Paixão de Joana D´arc (1928) e a deformação dos anões e a patuleia consumidora de arte barata, usado por Tod Browning em Monstros (1932).
O que causou furor foi que Berger não se usou somente de elementos estéticos da finesse do cinema mudo. As cenas de movimentos, os cortes de câmera e a dinâmica de exploração de espaço são influência direta de Cidade de Deus (2002), de Fernando Meirelles. Até Pepe, o galo de Carmencita, a Branca de Neve quando criança, trás consigo as cenas dos becos das favelas e os golpes modernos de câmera que começam a criar frutos no cinema mundial.
Branca de Neve (Blancanieves)
Produção: Espanha/ França/Bélgica, 2012
Direção: Pablo Berger
Dica Gros Rouge:
Contos Maravilhosos Infantis e Domésticos
Irmãos Grimm
Cosac Naify
Ilustrações:J. Borges
Tradução:Christine Rohrig





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